A Psicanálise é uma abordagem teórica e clínica criada por Sigmund Freud no final do século XIX, sendo considerada a primeira escola sistematizada de psicoterapia (FREUD, 1917). Seu objeto central de estudo é o inconsciente, conceito que revolucionou a compreensão da mente humana. Para a Psicanálise, grande parte dos pensamentos, desejos e memórias está fora da consciência, mas influencia intensamente os comportamentos e emoções do indivíduo.
Freud propôs que conflitos inconscientes reprimidos podem gerar sintomas psíquicos e somáticos, sendo a terapia psicanalítica o meio de trazer esses conteúdos à consciência para possibilitar elaboração e alívio do sofrimento (FREUD, 1917). A escuta clínica psicanalítica visa acessar significados ocultos nos sintomas, falas e atos falhos, possibilitando ao sujeito reconhecer suas motivações inconscientes e desenvolver maior autonomia sobre seus atos e escolhas.
Atualmente, a Psicanálise expandiu-se para diversas vertentes, como a Psicanálise Lacaniana, Winnicottiana e Kleiniana, além de influenciar profundamente a Psicologia, a Filosofia, a Educação, as Ciências Humanas e a Cultura Ocidental como um todo (ROUDINESCO, 2016). Mesmo com o surgimento de outras abordagens psicoterapêuticas, ela permanece como base conceitual importante para compreender as dimensões inconscientes do comportamento humano.
Os principais fundamentos teóricos da Psicanálise incluem a divisão estrutural da mente em id, ego e superego, o conceito de pulsões (vida e morte) e o modelo topográfico (consciente, pré-consciente e inconsciente) (FREUD, 1923). Esses conceitos explicam a dinâmica psíquica, os conflitos internos e os mecanismos de defesa utilizados pelo ego para reduzir a ansiedade gerada por impulsos inconscientes.
Entre as técnicas fundamentais da Psicanálise estão a associação livre, a análise dos sonhos e a interpretação dos atos falhos e sintomas (FREUD, 1900). Na associação livre, o paciente é convidado a falar tudo o que vem à mente sem censura, permitindo que conteúdos inconscientes emerjam. A análise dos sonhos é considerada a via régia de acesso ao inconsciente, pois simbolizam desejos reprimidos que, ao serem interpretados, possibilitam ao paciente reconhecer aspectos ocultos de si.
Além disso, o manejo da transferência e contratransferência é essencial no processo psicanalítico. Transferência é a repetição de padrões emocionais e relacionais do paciente no vínculo com o analista, enquanto contratransferência são as reações emocionais do analista ao paciente (RIBEIRO, 2018). Esses fenômenos, se trabalhados adequadamente, tornam-se instrumentos valiosos para compreensão e transformação psíquica.
Estudos demonstram que a Psicanálise e as psicoterapias psicodinâmicas, baseadas em seus conceitos, são eficazes no tratamento de transtornos depressivos, ansiosos, transtornos de personalidade e dificuldades relacionais (SHELDON et al., 2013). Meta-análises apontam que seus resultados continuam a melhorar após o término da terapia, devido à profunda reestruturação psíquica promovida no processo (LEICHESRING; KLEIN, 2014).
Além de ser utilizada como psicoterapia, a Psicanálise contribui como método de investigação cultural e social, analisando fenômenos como grupos, instituições, arte, literatura e cinema (ROUDINESCO, 2016). Sua aplicação também se estende à educação, ajudando professores a compreenderem processos inconscientes envolvidos na aprendizagem e na relação professor-aluno.
Por fim, a Psicanálise é fundamental para o campo da saúde mental, pois forma profissionais capazes de realizar escuta profunda, manejo de casos complexos e compreensão dos aspectos subjetivos envolvidos no adoecimento psíquico. Seu foco na singularidade do sujeito torna o tratamento psicanalítico um caminho de autoconhecimento e transformação pessoal duradouros (RIBEIRO, 2018).
A Psicanálise é uma abordagem clínica e teórica que revolucionou a compreensão do funcionamento mental, introduzindo o inconsciente como dimensão estruturante da vida psíquica. Suas técnicas permitem a investigação profunda dos conflitos internos, promovendo transformação e autonomia. Além de sua aplicação clínica, sua influência transcende a Psicologia, permeando a Cultura, a Educação e a compreensão humanizada do sujeito em sua totalidade.
FREUD, S. A interpretação dos sonhos. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Edição standard brasileira. v. IV-V. Rio de Janeiro: Imago, 1900.
FREUD, S. Introdução ao Narcisismo. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Edição standard brasileira. v. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1917.
FREUD, S. O ego e o id. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Edição standard brasileira. v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1923.
LEICHSENRING, F.; KLEIN, S. Psychodynamic therapy: A meta-analysis of randomized clinical trials. American Journal of Psychiatry, v. 171, n. 6, p. 706-717, 2014. Disponível em: https://ajp.psychiatryonline.org/doi/full/10.1176/appi.ajp.2014.13070913. Acesso em: 05 jul. 2025.
RIBEIRO, L. A. Psicoterapia Psicanalítica: teoria e prática clínica. 2. ed. São Paulo: Vetor, 2018.
ROUDINESCO, E. Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.
SHELDON, B. et al. Psychodynamic therapy for depression. The Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 2, 2013. Disponível em: https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD008706.pub2/full. Acesso em: 05 jul. 2025.